10 de ago de 2014

Entrevista com Beth Carvalho - Parte 1

Beth Carvalho - Folhas Secas

Segue uma longa entrevista com Beth Carvalho, dividida em duas partes, feita em 2010 para o site Buteco do Edu, de Eduardo Goldenberg, onde fala sobre sua vida e sua carreira para os entrevistadores Eduardo e seu irmão Luiz Antonio Simas.

Eduardo Goldenberg: Hoje é 27 de julho, nove e cinqüenta da noite, estamos aqui, eu e Luiz Antonio Simas, pra entrevistar Beth Carvalho. Como a gente sempre começa, Beth, fala, do seu jeito, o nome dos seus pais, onde você nasceu, as reminiscências da sua infância…

Beth Carvalho: O nome do meu pai, João Francisco Leal de Carvalho, minha mãe, Maria Nair Santos Leal de Carvalho, e eu nasci na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, no dia 5 de maio de 1946. Nessa ocasião meus pais moravam no Catete, na Bento Lisboa, 10. Esse prédio existe até hoje. É um prédio todo de pedra, todo de pedra, não fica velho nunca, resistente! Mas eu nasci na Pró-Matre, que fica na Gamboa. E meu pai, desde pequenininha, falava “você nasceu na Gamboa!”, e eu achava aquilo tão bonitinho… a palavra ”Gamboa”! E eu incorporei essa história… Qualquer pessoa que me perguntasse onde eu nasci, eu falava, “eu nasci na Gamboa!”. E isso ficou! E isso depois, bem mais tarde, em 72, quando eu fui fazer o disco “Pra Seu Governo” que eu pedi pro Mário Lago escrever a contracapa, ele me perguntou, “você nasceu aonde?”, eu falei, “eu nasci na Gamboa!” (ri). Aí ele disse, “ah, você nasceu no berço do samba” e tal, então ficou essa coisa… O Martinho da Vila fez um samba em minha homenagem, que é o “Enamorada do Sambão”… que ele fala (cantando) “Gamboa, Gamboa, Gamboa mas nem sempre estou na boa”, que eu também falava esse negócio de Gamboa pra ele, mas na verdade eu nasci no Catete, onde o Cartola nasceu também… (ri muito)

EG: E como foi sua infância?

BC: Minha infância foi maravilhosa, eu tive uma infância de rainha, tive tudo, tive velocípede, tive patins, tive balé (ri), tive natação, tive brincadeira na rua… Eu morei muito tempo na Urca… E a Urca era, ainda é um bairro muito…

Luiz Antonio Simas: Clima de interior…

BC: É impressionante! Pra criança não tem melhor! Então eu tive essa infância de praia, a praia da Urca não era poluída, tive infância de balé, como eu te falei, eu amava balé clássico… inclusive fui primeira bailarina na minha academia, eu tinha todo o jeito pra isso… Aos 13 anos eu engordei um pouco, veio o negócio de violão, de bossa-nova, e eu parti pra tentar o banquinho e o violão…

EG: Treze anos?

BC: Mais ou menos, por aí! Eu dei uma engordadinha, balé você tem que ser esquelética, e eu era esquelética! Pequenininha, não, mas depois eu ganhei corpo de bailarina mesmo! Eu não podia ver um poste que eu fazia barra, entendeu?! Eu era apaixonada, eu era rata do Teatro Municipal, minha mãe gostava muito… Mas também, ao mesmo tempo, eu era apaixonada por Carnaval…

EG: Desde pequena?

BC: Desde pequenininha! Minha mãe também! Minha mãe não era uma mulher de ficar saindo pra lá e pra cá mas Carnaval… ela era apaixonada! E ela me levava pra Cinelândia… Então eu via aqueles palhaços fazendo brincadeira com criança, eu me lembro disso… Tinha um XI e outro XI, juntos faziam XIXI! (rindo) Acho que tem isso até hoje, né? E aí as escolas de samba… Eu comecei a ver escola de samba eu tinha o quê?, uns 7, 8 anos de idade… E eu elegi a Mangueira pro meu coração, vai explicar! Não entendo!

EG: Sem influência de ninguém?

BC: Sem nada! Minha mãe não tinha uma escola, ela gostava de ver. Ela alugava um caixote, que era muito comum isso acontecer, a gente alugava um caixote pra ficar mais alto, que nem arquibancada tinha. E aí a gente assistia as escolas dessa maneira, Portela, Mangueira, Salgueiro, Império, não lembro… Eu lembro da Mangueira! Me marcou acho que pelas cores, pelas baianas… Porta-Bandeira e Mestre-Sala que eu sou apaixonada pela dança, né? Não deixa de ser um pouco clássica, né? Eu fiquei apaixonada pela Mangueira, então eu falava pra todo mundo que eu era Mangueira! Desde pequena, mesmo. E o baile do Teatro Municipal que era o que tinha, e era maravilhoso, baile infantil, era lindo, e os bailes de clube… Todos os clubes do Rio de Janeiro tinham um baile… Montanha, Tijuca Tênis Club, o Iate Clube, o Caiçaras, eu ia a todos. Chegou uma época que eu tinha o quê?, uns 14 anos, eu acho… Eu me mudava pra Tijuca! Eu tenho um lado tijucano forte…

EG (interrompendo): Ótimo!

(risos)

BC: … e isso por que? Minha avó morava lá, e meus primos que eu amo de paixão, Antônio Carlos, Luiz Roberto, Júlio Cesar, e minha tia Gardênia que já faleceu e meu tio Valdir… eles eram muito festeiros, muito festeiros!

EG: Você lembra a rua?

BC: Ernani Cotrim, uma rua sem saída, paralela à Maria Amália! Então a Tijuca… pra você ter uma idéia… Eu sempre morei na zona sul, morei na Urca, morei em Botafogo, morei em Ipanema… Eu acho que eu já estava em Ipanema nessa época. Agora… férias?! Eu ia pra Tijuca, dormia no quarto de empregada, numa beliche, eu dormia em cima, com aquele calor danado, com aquele morro atrás da gente, pedra pura, né? Eu ficava lá porque o Carnaval começava antes na Tijuca! Tinha quarenta bailes pré-carnavalescos!

LAS: Nos clubes?

BC: Nos clubes. No America… tinha muito bale no America. Eu, quando comecei a crescer, ia no infantil e no juvenil! E também brinquei muito no Botafogo… Eu freqüentei muito o Botafogo no Carnaval. Acho que era só no Carnaval que a gente ia lá. E o Carnaval era muito delicioso porque era na varanda, pras crianças era gostoso, tinha vento, eu me lembro que a minha mãe comentava, “ai, como é agradável aqui!”. Tinha orquestra, cara! Era coisa boa, entendeu? Os músicos eram da pesada, entendeu?! No Teatro Municipal tinha duas orquestras! Quando acabava uma, vinha outra. Wilson das Neves era um deles, que tava lá! Viu? Já desde aquela época, eu ficava ligada na orquestra, nos cantores, nos músicos… Eu tinha uma relação ali, sabe? Enfim… Carnaval… Eu aprendia cerca de setenta músicas por ano… Porque eu ouvia a Rádio Nacional direto, César de Alencar… Eu ficava o dia inteiro ouvindo aquilo… E a gente aprendia, naqueles programas, as músicas do ano, as de Carnaval. E todos os cantores tinham o que gravar no Carnaval. Nora Nei, Jorge Goulart…

LAS: Eles faziam música pra Carnaval!

BC: Sim! Eles viveram até morrer, disso! É o direito autoral mais forte do Brasil, é o direito autoral do Carnaval. Eu sei porque “Vou Festejar” segura a onda de todo mundo. Tinha que ser comigo o “Vou Festejar”, não podia ser com outra pessoa!

EG: Vamos voltar um pouquinho…

BC: Já falei muito! (risos)

EG: Com treze anos você largou o balé e foi pro violão… Foi seu primeiro contato com o instrumento?

BC: Eu tocando, sim. Mas teve o piano antes! Estudei um pouquinho, cheguei a dar uma audição e tal, mas não segui. Meu negócio era o balé!

EG: E o que é que os seus pais ouviam em casa?

BC: Meu pai e minha mãe tinham um bom gosto impressionante! Meu pai amava Dorival Caymmi, amava Noel Rosa, minha mãe ouvia muita música clássica, música erudita, ópera, ela adorava. Mas ela gostava também de cantores populares. Meu pai era mais ligado nesse negócio de compositor… Adorava Aracy de Almeida, chegou a ser amigo de Aracy, muito amigo da Elizeth Cardoso e do Sílvio Caldas. Sílvio Caldas era nossa paixão em casa. E a paixão da minha mãe era o Orlando Silva. Então aprendi isso tudo, pequena…

LAS: E as primeiras cantoras que você tem como referência são essas duas, Aracy e Elizeth?

BC: Talvez tenham sido. Mais a Aracy, viu?! Não sei te dizer. Eu sei que eu tenho tudo a ver com a Aracy de Almeida! (rindo) A mulher que vai pros botequins, a mulher que…

LAS: … rompe barreiras…

BC: É, meio isso… um pouco Chiquinha Gonzaga… tem muito a ver com esse espírito… Não sei exatamente se foi, mas acredito que sim. Eu era muito pequena…

EG: Então você foi estudar violão com treze anos?

BC: Fui estudar violão porque meu pai, pra variar… Meu pai era funcionário da Alfândega, conferente da Alfândega. Era bacharel em Direito mas não exerceu a profissão. Exerceu essa, que deu uma condição financeira boa pra gente. Não éramos ricos mas vivíamos legal. Meu pai foi pra Santos mas vinha todo final de semana. Ele adorava as filhas dele, minha mãe… Ele chegou com um disco e disse, “filha, escuta esse violão!”. Eu botei e me apaixonei. Era o João Gilberto. Me apaixonei por aquilo. Mas eu já tinha a Rádio Nacional em mim, Blecaute era o meu ídolo! Eu amava o Blecaute! O sonho da minha vida era tirar uma foto com o General da Banda. E eu tirei! (cantando) “Chegou o General da Banda ê, ê…”. E o destino é incrível, né? Não é que teve um música na minha banda, durante um tempo, que era neto do Blecaute!?

EG: Eu vou mandar pra você um fabuloso, genial e hilariante texto do Luiz Antonio Simas sobre o enterro do Blecaute!

BC: Ah, é?

LAS: Essa história é verdade! O Blecaute morreu e o camarada muito emocionado, tomou um porre, e foi homenagear o Blecaute mas foi pro cemitério errado. Entrou numa capela, achou um absurdo aquele silêncio todo e começou a cantar “Chegou o General da Banda ê, ê…” e todo mundo acompanhou!

(Beth ri muito)

BC: Então, fui encontrar o neto do Blecaute em São Paulo, em São Mateus! Não é demais? Aí o João Gilberto adentrou no meu mundo que já era muito rico musicalmente, porque eu tinha a Rádio Nacional, as cantoras populares, eu amava todas elas, Nora Nei, Emilinha, Marlene… Eu sou uma cantora de auditório! E eu tenho orgulho disso! Eu aprendi com elas, isso. Eu entro no palco, amiga da platéia! Dando amor pra platéia.

LAS: Não é aquela história de muita cantora que se diz tímida, que não gosta nem de ver a platéia…

BC: Dou meu coração pra platéia, entendeu? Isso eu via nas cantoras de auditório. E isso eu peguei. Talvez seja isso que me dê a popularidade que eu tenho. Eu não sei o que é que é vaia, por exemplo!

EG: O João Gilberto…

BC: O João foi uma mudança na cabeça de Deus e o mundo, né? Harmonia… Uma coisa da elite, da zona sul… O canto era um canto da zona sul do Rio de Janeiro… Corcovado, Arpoador, praia, garota de Ipanema, que tinha a ver com uma realidade minha. Eu também era isso… Mas eu sei o que é morar em Ipanema, sei o que é morar em Ipanema, sei o que é morar na Urca, mas sei também o que é a Tijuca, sei o que é o subúrbio. Minha mãe, quando eu era pequena, tinha amigas no subúrbio. Então eu pegava o trem com ela e ia pra Vicente de Carvalho e Padre Miguel. Eu ia pra lá sempre. Adorava aquele negócio de subúrbio, completamente diferente da nossa realidade mas que me fascinava também. Eu gostava daquilo. Desde cedo eu convivi com todas essas realidades… Como conhecia, também, todos os apartamentos da Vieira Souto… eu acho que eu conheço todos! Porque eu comecei a aprender a tocar violão pra valer, tocava legal, e hoje isso quebra o meu galho, eu tenho uma relação com músico maravilhosa porque eu sei o que é harmonia, posso discutir com músico, com maestro… Mas naquela época eu tocava legal, sabe? Me contaram, anos depois, que o Edu Lobo uma vez teria falado, “ela tem um violão masculino”… (rindo) Eu agradava muito nas festas. Eu sabia muito o repertório. Mas eu cantava, já nessas festas, eu cantava João, Tom Jobim, Nelson Cavaquinho, Cartola, cantava uns negócios que eu sabia do Salgueiro porque eu ia, com aqueles meus primos, todo domingo ao Salgueiro. O Salgueiro foi a primeira escola que se abriu pra classe média, e era no morro!

EG: Calça Larga?

BC: Calça Larga! Naquela rua que sobe, a General Roca… por ali. Lá em cima do morro. Então eu ia pro morro e eu dizia no pé! Com 13, 14 anos. Eu dizia no pé porque eu via as cabrochas sambando, eu aprendi olhando… Lógico que eu nunca fui uma cabrocha mas eu aprendi a sambar, o que era uma coisa muita rara na minha época! Eu nunca vi! Então eu cantava uns sambas de lá. Eu freqüentava também o Bafo da Onça, que era no Minerva, era época do Oswaldo Nunes, eu ia pra lá, ficava ouvindo aqueles sambas, um samba mais lindo que o outro… (cantando) “Quero ser feliz / Construir um lar / Mas o destino não quis / Quero ter alguém / Que me compreenda bem / E que me faça um dia feliz / Teremos crianças / Seremos carinhosos / Nas horas de alegria e da dor / Eu hei de ser um chefe de família exemplar / Amor, amor, amor / Não tem razão / Quem assim diz / Que o malandro não casa / Que o malandro não é feliz!” Quando tocava isso eu ficava emocionada, até chorava! Eu tinha uma coisa com o samba… E na zona sul, nem pensar… Na zona norte tinha mais! E eu comecei a freqüentar escola de samba com uma turma muito mais velha que eu. Quando eu mudei pra Ipanema, um dos meus vizinhos era um médico que era amigo do Albino Pinheiro. Inclusive a Banda de Ipanema surgiu ali naquele lugar. Eles bolaram a Banda de Ipanema, eles, o Ferdy Carneiro, e eu, claro, já querendo sair na Banda! Carnaval era comigo mesmo! Samba enredo também eu adorava, aprendia aqueles sambas compridões…

LAS: Essa época é anterior ao disco!

BC: Nossa, eu adorava saber aqueles sambas! Aí eu comecei a sair com essa turma, porque eles iam pra Mangueira. Estava pra ser inaugurada a nova quadra que Sabino Barroso e José Leal fizeram pra Mangueira.

LAS: O Leal, do Digão!

BC: É, da livraria da Ouvidor… E a Mangueira ficou linda. Eu conheci antes e depois. E a gente ia todo sábado… Eu me lembro que eu ia pra ver o Jurandir cantar! Eu era apaixonada pelo Jurandir cantando! (suspira e canta) “Minha companheira foi embora / Solidão veio comigo morar!”. Nossa, eu adorava isso! Eu vi a Leci Brandão chegar na Mangueira cantando (cantando) “Quero sim / Mais um pouquinho de inspiração”, lindo, isso. E ela foi pra ala de compositores da Mangueira… Então esse mundo aí era um mundo muito meu e dessas pessoas bem mais velhas que eu… Passei a freqüentar a praia que eles freqüentavam, porque a gente tinha a ver, a conversa tinha a ver… Nesse meio tempo eu conheci o Edmundo, arquiteto, a gente namorou, ele também tinha relação com essas pessoas, depois ficamos noivos, aí ele fez “Andança”, bom… aí já fui pra frente! É uma misturada a minha vida em termos de informação! (rindo) Zicartola eu ia muito, mas ia mais no Teatro Opinião quando surgiu a peça, que deu nome ao teatro. Você sabe que o teatro chamava Teatro de Arena e virou Teatro Opinião por causa da peça, pra você ter uma idéia do que foi aquele musical… Vocês chegaram a ver?

EG: Não…

BC: Você não tem idéia do que foi aquilo!

LAS: Tem uns registros em disco, mas só uma parte…

BC: Olha, o coração da gente vinha aqui! (põe a mão na garganta) A Nara… a Nara fez uma revolução. Ela era a musa da bossa-nova, aquela coisa de apartamento, de uísque, de frente pro mar, aquela coisa bem elitista e ela vai… (cantando) “Carcará, pega, mata e come!”. João do Vale! Aí vem com Zé Keti, né?, vem com Nelson Cavaquinho, Oduvaldo Viana Filho fazendo a peça… Foi uma revolução que ela fez, maravilhosa, e que tinha tudo a ver com o que eu também gostava, e muito, até mais, e eu acho que fui ver umas quinze vezes… Depois a Nara traz a Bethânia! Você não tem idéia do que foi a Bethânia, cara, quando ela chegou cantando, inacreditável!, arrepiava todos os cabelos. (canta) “Carcará, pega, mata e come!”. E ela falava… e eu cantava nas casas “Carcará”, “Subdesenvolvido”, já fazendo protesto! Eu já fazia protesto nessas casas de rico. (rindo) Ela falava um texto de teor político e muito emocionante, e voltava cantando… eu tenho o compacto!

LAS: Ela falava da fome…

BC: Nossa Senhora! Muito lindo aquilo, meu Deus do céu, eu chorava, muito aplauso! Foi uma coisa. Tanto que é o único teatro que tem o nome de uma peça, que eu saiba, né?

LAS: É verdade!

BC: Então depois virou Teatro Opinião. E tinha as rodas de samba às segundas-feiras… Eu já conhecia alguns sambistas, outros eu não conhecia… aquelas maravilhas… um elenco fixo… Nelson Cavaquinho, Cartola, Clementina e Xangô!

LAS: Dona Ivone Lara…

BC: Não… dona Ivone é bem depois! E eu passei a ir toda segunda-feira, aí saía dali e ia pra Adega Pérola, que tinha uns petiscos maravilhosos…

EG: Ainda tem!

BC: Era uma loucura… Mas eu já tô falando muito…

EG: Tá nada! Fala mais!

BC: (rindo) É que eu vou lá pro passado, volto pro presente…

LAS: O que fica de interessante nisso é o seguinte, e você vê isso em pouquíssimos músicos, cantoras e cantores brasileiros… É a questão da informação… Você tem muita informação, né? A Aracy tinha isso, o Noel tinha isso, você tem muito isso! Você transita, como eles, numa certa zona de fronteira!

BC: Verdade! Noel subiu o morro de Mangueira, fez samba com Cartola… o Sergio Cabral me chama de Túnel Rebouças! (rindo muito). Uma coisa também que eu queria falar… a parte latina! Eu tinha e tenho latinidade! E falta ainda muito no Brasil…

LAS: Verdade…

BC: E ganhei isso por causa da minha irmã, Vânia, 7 anos mais velha que eu. A Vânia, Vânia Santos Leal de Carvalho, cantava, e canta até hoje, muito bem, principalmente músicas espanholas porque ela estudou num colégio de freiras espanholas, lá no São Marcelo. Eram freiras espanholas, ela pegou aquela cultura… Essa coisa hispano, latina, eu peguei desde criança…

EG: Mais um ingrediente no seu caldeirão, né?

BC: Muito forte! Quando surgiu o Lucho Gatica, chileno, que é um dos maiores cantores do mundo pra mim, cantor de bolero, arrebatou. Minha irmã era alucinada por ele, e você sabe que irmã mais velha influencia… Quem, na minha idade, sabia quem era Lucho Gatica? (rindo) Ninguém! E a gente continuou ouvindo coisas espanholas, cubanas, veio a revolução cubana, Che Guevara, Fidel… essa coisa toda que nos encantou enormemente… “Guantanamera”… a Nara cantava “Guantanamera” no Opinião! Por isso eu tenho esse sonho de gravar um disco cantando as músicas revolucionárias da América Latina, porque eu sempre me liguei nisso, Mercedes Sosa, Pablo Milanéz, Silvio Rodriguez, Los Chalchaleros, é uma maravilha! A Rosita Gonzales, que cantava praticamente só em espanhol!

EG: Vamos voltar pro trilho!?

BC: Eu viajo muito, né? Vamos lá!

LAS: Estamos no início dos anos 60…

BC: Foram muito ricos…

LAS: Estamos no pré-golpe…

BC: Meu pai era um homem de esquerda. Sempre nos informou sobre a posição dele, e eu sempre segui ele. Papai tinha o retrato e o busto do Getúlio Vargas, papai falava muito do Leonel Brizola, do Prestes… Papai foi cassado porque pensava dessa maneira, passamos um sufoco por causa disso… Mas ele pegou o número do processo dele, jogou no bicho e vivemos um ano com esse dinheiro! (rindo) Meu pai jogava no bicho, sempre!

EG: Quando é que você decide que vai ser cantora?

BC: Não decidi! Eu adorava cantar, ia pra todo que era lugar cantando… e veja bem… eu passei a ser a queridinha dos compositores… A gente tinha uma turma que já era… Veja… Eu freqüentava a casa do Tom… Eu namorava um cara que era amigo do Tom e eu ia pra lá fazer vocal. Adorava isso! Vocal era comigo mesmo. Já fazia no colégio! Freqüentava a casa do Marcos Valle, tinha umas reuniões musicais, muito boas… Mas nós já éramos os filhos desses caras… Filhos é exagero! Mas eu tinha uma turma que era Edmundo Souto, Paulinho Tapajós, Arthur Verocai, Danilo Caymmi, Arnoldo Medeiros, Tibério Gaspar, Antonio Adolfo… a gente saía em bando! E nessa época eu já ganhava dinheiro tocando violão! E quando eu era convidada pra fazer um show, eu levava uns dez comigo e entrava pela porta da frente! Foi quando começaram os festivais… Ah, o Luiz Claudio, que toca com o Chico Buarque, também era da nossa turma! Eles começaram a fazer música. E como eu sabia cantar as músicas deles, eu passei a ser a cantora deles. Eu tenho milhões de fitas gravadas na casa de um cara chamado Karan, que se está vivo, espero que sim!, ele tem um material riquíssimo não só da gente, mas de todo mundo! Ele gravava em fita de rolo, qualidade total. Foi lá que eu conheci o Milton Nascimento, isso já em 67. Milton na fila esperando pra gravar “Morro Velho”, “Maria, Minha Fé” e “Travessia”. Foi quando eu vi que estava diante de um gênio, mas isso é outra história… O que aconteceu, então, pra eu virar cantora profissional? Eu cantava em tudo o que era lugar. Mas eu ia muito no apartamento do Raul Alvarenga Porto, maravilhoso, câmera da extinta TV Rio. Ele me adorava. Um dia ele disse, “Beth, eu vou botar você no programa do Flávio Cavalcante”, o Flávio que tinha o maior programa da época da TV brasileira em termos de audiência… Acho que era parente, tio dele. Eu fui a uma festa no apartamento do Flávio e cantei, cantei as coisas todas, cantei “Subdesenvolvido”, e ele era lacerdista! Provocando ele! Mas ele amou, me adorou, e pronto! Me botou no programa dele. Pra você ter idéia, eu não tinha nem roupa, roupa de festa, quem me emprestou a roupa foi a mãe do Raul.

EG: Isso foi em que ano?

BC: 64 pra 65, por aí. Aí eu cantei uma música que o Menescal tinha acabado de fazer pra mim, chamada “Por Quem Morreu de Amor” e “Namorinho”, que era do meu namorado! Athayde e Mário de Castro! (rindo) Já cantei música inédita e música de compositor novo! Eu me acompanhando no violão. Quem me assistiu foi Humberto Reis, que era jurado do Flávio Cavalcante, e o Paulo Rocco, que era diretor-artístico da RCA. Assistiram, adoraram, comentaram com o Vica Giffoni, que era da nossa turma também, um compositor que vivia mais em São Paulo e ele disse “Bom, pela descrição só pode ser a Beth! Mulher, tocando violão, de perna grossa, e cantando bossa-nova, é ela”, aí não sei qual dos dois me ligou e me convidou pra gravar na RCA! Foi assim! Eu tive uma orquestra de cordas, imensa, um estúdio imenso, arranjos do Eumir Deodato – porque a gente fazia muito vocal, o Athayde, que eu namorava, tinha um conjunto, o Quarteto 004, e o Eumir fazia os arranjos – e o Menescal no violão. Eu tive os caras, né? O Eumir era um cara não entendido no Brasil de tão moderno que ele era, ele ia lá na frente. O disco tocou muito na JB, que era uma rádio bem elitista, a música do disco era mais elitista. Ah, tem uma história boa!

EG: Conta!

BC: Nessa época eu ia fazer um show que eu não fiz! Um show que foi feito pela Leny Andrade e pelo Peri Ribeiro! O Ronaldo Bôscoli me chamou pra fazer esse show. Eu não tinha experiência nenhuma, não era minha jogada… Mas ele queria que eu fizesse, eu era nova, era um trio, baixo, piano e bateria. Eu falei que não ia fazer. Era no Porão 73, no começo de Copacabana! E foi a melhor coisa que eu fiz… E eu adorei aquele show, que acabou sendo com a Leny. Muito tempo depois a Leny me contou. O Bôscoli foi à casa dela, ela preta de praia, e ele, (imitando) “Leny, vamos fazer um show que estréia depois de amanhã!”. Mas ela tinha experiência, já, né? Era da noite, ótima cantora, arrebentou, e acho que foi o primeiro disco gravado ao vivo aqui. Depois o show viajou, foi pro México, eles ficaram uns 3 anos morando lá! Recebi convite também pra cantar com o Sérgio Mendes, pra morar no Estados Unidos, e eu “ah, não, nem pensar!”. Eu tinha horror ao sistema imperialista americano desde cedo! Claro que eu gosto muito da boa música americana, é sensacional, mas enfim…

LAS: E você acha que fez muito bem de não ter feito esse show?

BC: É, eu tô querendo justificar porque é que eu gravei “Por Quem Morrer de Amor”, porque o Menescal tinha feito essa música pra eu cantar nesse show! E quando eu fui gravar o disco, gravei. Mas eu achei ótimo não ter feito esse show, nem ido pros Estados Unidos, se não eu não teria tido essa carreira que eu tive, não é verdade?

LAS: Verdade.

BC: Ah! Quando eu falei do Sílvio Caldas, da Elizeth e da Aracy, eu esqueci de dizer que eu fazia aniversário junto com o meu pai. E meu pai era amigo de pescaria do Sílvio Caldas, e o Sílvio Caldas deixou de fazer um show pra poder ir no aniversário do meu pai, e conseqüentemente eu peguei o jabá! Essa barbada! Eu me lembro que eu tinha 5 anos de idade e me lembro que o Sílvio Caldas, brasileiro do jeito que era, falou, “Nós não vamos cantar parabéns pra você nessa data querida, porque isso é uma versão! Vamos cantar o nacional”. E ele cantou o nacional (cantando) “Parabéns a você, parabéns / Toda felicidade / Muitos anos de vida, também / E sempre a nossa amizade”. Eu tinha 5 anos…

LAS: O que eu acho interessante destacar, Beth, é que existe, para algumas pessoas, a visão e a sensação de que você teria subitamente descoberto o samba, e a gente repara que não, que você já cantava samba nos seus shows, antes mesmo dos festivais…

BC: Em 66 eu fiz “A Hora e a Vez do Samba” no Teatro Jovem. Tudo era no Teatro Jovem, impressionante… Eu toquei piano nesse Teatro Jovem, eu dancei balé nesse Teatro Jovem, porque minhas aulas eram na União das Operárias da Jesus que fica ali, as feiras de samba, as feiras de música, todas foram feitas lá, que o Kleber Santos organizava, reivindicar coisas, sempre na luta pelo melhor da carreira artística das pessoas, eu já estava nesses movimentos… Fui fazer “A Hora e a Vez do Samba” lá. Era Nelson Sargento, Noca da Portela… (pensando)… Trio ABC da Portela! Colombo, Picolino e Noca! Isso em 66! Acho que tinha o Nelson Sargento também… Eram essas pessoas, que eu amava de paixão… Eu cantava sambas, claro, cantava Martinho da Vila, cantava “Iaiá do Cais Dourado”, foi lá que o Martinho me conheceu (rindo). Já ficamos um pouco amigos desde ali. Depois eu fiz “Sexta-Feira é Dia de Samba”, no Teatro Jovem, tinha Rildo Hora, tinha Antonio Houaiss, tinha o Nelson Sargento… ai, não lembro! Mas era samba, era essa coisa de resistência, o pessoal do protesto… E depois eu vi, no Teatro Jovem, um show que pra mim foi determinante, o show “Rosa de Ouro”. Ah não, mas antes disso eu fiz um show, “Arena Clube de Arte”, que era num teatro pra 50 pessoas, na Barata Ribeiro. Eu, Grande Otelo, Milton Morais, um grande ator, Sargentelli e mais o Nelson Sargento, Anescarzinho, Picolino e Zé Keti. O show era o seguinte… o Sargentelli enchia a minha bola, me adorava, eu era aquela menininha que sabia tudo de música, de todo jeito, de todo tipo, e aí ele falava pra platéia, “Pede aí um samba do Ismael Silva, do Noel Rosa, o que é que vocês querem ouvir?”, o show era isso, olha que loucura! Essa era a minha parte. O Zé Keti estava lançando “Máscara Negra”. O Grande Otelo fazia aquelas coisas dele, misturando poesia, e o Milton e o Sargentelli contavam histórias… ele que era sobrinho do Lamartine Babo, contava mais do samba. A gente saía de lá, ia pra Fiorentina e dividia uma pizza pra nós, e cada um comia um pedaço! Miséria total mas uma alegria absoluta, entendeu? (rindo) Essa história do samba culminou quando eu vi uma coisa que eu não acreditei, que foi a Clementina de Jesus. Quando a Clementina apareceu naquele palco do “Rosa de Ouro” eu falei “eu sou isso aí!”. Sabe o que é entender a Clementina?! Não é qualquer um que entende, não! Aquilo baixou em mim, sabe? Tanto que eu dedico meu primeiro disco de samba à Clementina e à Elizeth. Fui ver umas 15 vezes também! O show lançava Paulinho da Viola, lançava Os Quatro Crioulos, lançava Clementina e trazia de volta nossa Aracy Côrtes. Direção do Hermínio Bello, no Teatro Jovem também! A Clementina… eu sei imitar a Clementina… de tanto que eu a amei… Ela tinha as mãos enormes, as unhas compridas, fazia assim com as mãos (imita, imita cantando) “Benguelê, benguelê, benguelê oh mamãe Simba, benguelê”. Depois ficou comum, sabe? Mas não era. Não era nada comum! Era totalmente diferente! Vieram os festivais… Eu cantei, em 66, um samba urbano, tipo Chico Buarque… Ah! Ah!

EG: O quê foi?!

BC: Quando surgiu o Chico Buarque eu me apaixonei de verde, amarelo, azul e branco! E antes disso, quando surgiu o Baden, eu também me apaixonei! Meu violão deixou de ser João pra ser Baden! Mais negra, mais afro. João Gilberto, Baden, veio o Chico, e antes o Tom Jobim, que esse é sagrado. E mais o Nelson Cavaquinho, o Cartola, eu amava os dois mas tenho uma identidade maior com o Nelson… Onde eu estava, hein?!

EG: Nos festivais, Beth!

(rindo)

BC: Ah, o samba urbano. O samba chamava “Berenice” e eu o cantei no festival “O Brasil Canta no Rio”, da TV Excelsior. Em 67 veio o “Festival Universário” da TV Tupi. O Adonis Karan era o diretor do festival e me convidou pra cantar uma música chamada “Meu Tamborim”.

EG: O Karan daquelas gravações?

BC: Não! Era parente! Achava que era a minha cara, por conta do samba e tal. Era do César Costa Filho e do Ronaldo Monteiro de Souza. O arranjo do Ivan Paulo, e a música ficou em terceiro lugar… Aí veio 68. O que a gente tinha pra mostrar eras nos festivais, né, bicho? Veja bem… eu já tinha gravado meu compacto, em 65, tocou, mas era uma coisa mais elitista, como eu disse. Eu sempre gostei de ir pro povo, sabe? Eu sempre tive uma alma popular. Eu cantava bossa-nova como samba, eu gostei da bossa-nova porque era um braço do samba! E em 68, lembra das fitinhas que eu te falei?

LAS: Sim…

BC: Eu tinha 40 músicas pra escolher. Inclusive música minha. Mas escolhi cantar “Andança”. Chamamos os Golden Boys e foi aquele impacto. “Andança” só perdeu pra Geraldo Vandré, com aquele hino, e pra “Sabiá”… que eu chorei junto, sabe? Injusta, aquela vaia… Quando eu ouvi, nos ensaios, falei pro Edmundo que ela ia ganhar. Mas “Andança” pegou no primeiro “me leva amor…”, e não é uma música fácil, nem uma letra fácil… Estamos em 68 e o samba está aqui dentro de mim, batucando… Aí surgiu um movimento, em 67, chamado “Música Nossa”, liderado pelo Roberto Menescal. Era ali, onde era o Carinhoso, tinha um teatro. Toda semana tinha música. Eu cantava “Viola Enluarada”, que era inédita, e “Contraste”, do Edmundo Souto e do Arnoldo Medeiros. Um dia o Menescal avisou pra gente que as gravadoras iam lá pra ver os músicos e escolher seus cantores e cantoras, seus artistas. E assim eu fui pra Odeon. Aí eles gravaram “Berenice”, “Meu Tamborim” e “Andança” no estúdio. Vai sair tudo agora de novo! Aí em 69 é que saiu meu primeiro LP, onde eu já tô ali… tem uma faixa do Carlos Elias da Portela, sambas do Baden, “Andança”, lógico, músicas do Paulinho, do Edmundo, Arnoldo, Milton Nascimento, que é “Sentinela”, e ele toca o violão, a gravação é com ele, e eu chamei o César Camargo Mariano, que era do Trio 3D, que eu achava muito bom por causa do suingue. Meu primeiro LP foi com o César Camargo Mariano com o trio. Eu já tinha visto ele tocar com o Simonal, numa boate em São Paulo, eu acho, não lembro bem. É um disco que mostra uma cantora com algumas facetas mas mais pro samba, porque tem Baden, tem Paulo Cesar Pinheiro, tem Marcos Valle, tem Carlos Elias da Portela… Tem Vinícius… E assim foi.

LAS: E era um momento em que o samba estava explodindo mesmo, né? Se você pegar o samba enredo, por exemplo, a Mangueira, cantando Monteiro Lobato, foi um pouquinho antes… em 67!

BC: Olha só! Eu gravei um samba enredo da Mangueira num disco só com cantores e cantoras, não puxadores de samba. Foi quando comecei a desfilar na Mangueira, em 1970… Eu sei que eu estava nessa, festival, festival, festival… Aí eu disse pro meu diretor e disse “Olha, ouvi um samba maravilhoso, quero gravar, quero gravar um disco só de samba”, e fui vetada. Aí eu pedi meu boné na Odeon e fui embora! Eu já estava com um material enorme, já estava nas andanças, já estava na pesquisa, entendeu? “Minha Companheira”, por exemplo, era uma música inédita. Músicas do Nelson Cavaquinho… Pedi meu boné, pedi a rescisão do contrato e o Manolo Carmero, tinha aberto uma gravadora pequena, chamada Tapecar, uma gravadora pequena, na avenida Brasil, um cubículo. E a minha prima, Tânia Carvalho, jornalista, era amiga da esposa do Manolo e me disse que ele estava querendo conversar comigo. Aí ele foi na minha casa e eu assinei o melhor contrato do mundo! Pra você ter uma idéia eu tinha direito a 9 passagens por ano pra Europa! Aí eu virei uma forte vendedora na Tapecar. Gravei o meu primeiro disco só de samba, o “Canto Por um Novo Dia” – olha o recado, olha o nome! – porque o samba sempre teve essa conotação política, não só musical, sempre foi uma bandeira da esquerda mesmo! O samba sempre foi uma coisa da esquerda, meu Deus! A direita quis fazer o samba ser da direita, mas ele nunca foi! Sempre teve os sambas de protesto, que eu adorava, que só o povo sabe falar mesmo, né?

EG: E esse disco você grava com autonomia absoluta?

BC: Total! Eu botei todo mundo na Quinta da Boa Vista de manhã, Nelson Cavaquinho, Paulo Cesar Pinheiro, Gisa Nogueira, Mário Lago, todo mundo que tá no disco estava na Quinta da Boa Vista na foto! Um milagre, né, esse povo de manhã!

LAS: Tem música do Mário Lago…

BC: Tem, ele volta pro disco assim, com “Salve a Preguiça, meu Pai”. Que era uma coisa velada, né, mas era um recado pros caras… Venha me buscar, mas eu vou de colo pra não me cansar!

LAS: Tem Martinho, tem Nelson (cantando) “Quando eu piso em folhas secas…”… Beth, você lembra o ano em que você conheceu o Nelson?.

BC: Eu acho que eu conheci o Nelson… (pensando) … esse filme do Leon Hirszman, de 69, eu não sei se eu vi antes ou depois… Eu conheci o Nelson, de vê-lo, no Teatro Opinião! Mas eu não tinha coragem de me aproximar dele, porque ele tinha os olhos esbugalhados quando bebia (imitando), ele gostava um pouco de beber, né? (rindo), eu achava que ele podia ser meio agressivo, ficava meio assim. Eu não era conhecida, eu estava começando minha carreira, né? Sabe como é, né? Até que um dia eu fui com Edmundo, minha irmã, uma turma, pro bar que ele freqüentava na Lapa, acho que Ouro Verde, um bar de esquina, botequim mesmo, de balcão, e nos fundos tinha umas mesas e cadeiras. Eu fui e aí encontrei o Nelson. Aí sentei do lado dele (rindo). Sabe aquela apaixonada? Aí eu comecei a cantarolar com ele, baixinho, e ele me olhava, sabe? Cantou uma música do Nelson pra ele, ganhou o coração dele, era assim, uma criança, sabe? Aí ficou meu amigo, sabe? Aí era Natal lá em casa, aniversário dele lá em casa, criou até ciúme… O Albino dizia “Pô, não agüento mais esse Nelson Cavaquinho com essa Beth Carvalho!”, era puro ciúme! O Albino Pinheiro veio me confessar isso uns dez anos depois. Eu ri muito com ele. Engraçado, né? A gente não imagina isso. E aí, pronto. Eu já era apaixonada pela obra do Nelson, vendo ele, entendendo ele… Lembra o que eu falei da Clementina? O Nelson também não era fácil de entender. O Nelson, cantando com aquele violão, ou ama ou odeia. Não tem meio-termo. E eu amava. E eu ficava sendo aquela menina andando com o Nelson, eu já tinha carro, já era famosa, deixava ele na Praça Tiradentes… Aí ele me deu “Folhas Secas” de presente, me deu o cavaquinho dele de presente e ele me adorava! Eu adorava ele e ele me adorava.

EG: Quantos anos de amizade?

BC: Ah… desde 71…

EG: Você consegue lembrar de alguma história épica do Nelson que você ainda não tenha contado?

BC: Não, não… (pensando) Olha, eu nunca vi ninguém tocar violão com a capa! Tinha hora que o sono era tanto, que ele tocava com a capa, com o violão encapado! Ah, e na capa daquele violão ele colocava coisa que até Deus duvida… Botava peixe e voltava três dias depois do peixe comprado, porque ele parava no botequim, emburacava… Quem sabe mais dessas histórias é o Sergio Cabral, um pesquisador nato! Eu fiz um show com o Sergio Cabral e o João Nogueira, no João Caetano, com o Joel do Bandolim, o Sergio contava histórias todos os dias, todos os dias eu ria! Eu lembro dessa coisa do peixe na capa do violão… Ah, e quando ele foi gravar comigo puseram o fone nele, né? E ele (imitando): “Eu não sou aviador pra usar isso aqui, não?”. Fizemos vários Seis e Meia juntos, Pixinguinhas… e ele não bebia!

LAS: É mesmo, é?

BC: A maior prova de amor dele! Tinha vezes que eu dizia “Nelson, bebe uma cerveja, você tá muito velho e tá chato”, porque ele é que ficava tomando conta de mim, sabe? (imitando) “Já vai pra farra, é?”. E ele ficava no hall do hotel, tão bonitinho, todo penteado com aquele pente que ele adorava, cheiroso, de roupa branca, com aquele lenço rosa saindo assim, às quatro horas da tarde ele já ia pra lá, pronto! E ele tinha essa coisa também: tinha meses que ele ficava sem beber nada… Mas de repente caía dentro e… ia direto!

LAS: Você lembra exatamente quando vem o Cacique?

BC: Eu fiquei muito enturmada com todos esses compositores, não só Nelson e Cartola. Cartola foi em 74, quando eu fui na casa dele e ele me mostrou “As Rosas Não Falam”, “O Mundo é um Moinho”, só música boa. Mas antes disso, eu já tinha relação lá de trás com Noca da Portela, Picolino, Zé Keti, essa turma que eu já falei, e mais outros, né?, que isso não para… Silas de Oliveira ia na minha casa… Eu resolvi digitalizar tudo o que eu tenho aqui em casa, sabe?, bicho, tenho coisas do arco da velha… tem fita do Silas de Oliveira, tem fita do Zeca Pagodinho no comecinho, tem Arlindo, tem Sombrinha, tem do Cartola, tem do Nelson, conversas com o Nelson, é uma coisa que eu tenho que botar num blog, criar uma ONG, um museu, uma fundação…

LAS: É raríssimo…

BC: Quem?

LAS: O Silas, é raríssimo!

BC: Eu tenho ele cantando, aqui! Entendeu? Porque eu sempre dei atenção ao compositor, sempre. Sempre tive a maior reverência… Eu gravava tudo…
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(Continua...)

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